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Não sendo eu um fulano de dar atenção aos futebóis e suas tretas, assim como presentemente nada interessado nas nebulosas e perigosas coisas políticas, tendo a deixar-me arrastar pelas artes, desde que, bem entendido, nelas não estejam contidas política retrógrada, wokismo e outros tipos de retardo mental. E, dentre todas as artes, eu privilegio as musicais. . Sucedeu então ser convidado, na noite do dia mundial da música, para um concerto, digamos, diferente.

António Vitorino D´Almeida, reza a Wikipédia, dista de mim em idade apenas quatro anos, mas ele encetou sua longa estrada musical e artística em palco, com apenas sete anos de idade, ao piano, tocando peças de Mozart, Beethoven e composições dele próprio! Daí os seus oitenta anos de carreira, sendo comemorados em apresentações acompanhado pelo excelentíssimo músico que é Manuel Teles, formado pelo conservatório Giuseppe Verdi, muito conhecido na Itália e de mágicas habilidades nos saxofones – do soprano ao barítono! Mas, devo dizer em abono da verdade, nenhum desses dois nomes eram por mim conhecidos, antes de ser convidado por familiares, que se encarregaram de adquirir os caríssimos ingressos ao preço de um euro cada! A performance, que chamo de jazzística e reconheço não ser para todos os ouvidos, foi uma miscelânea de temas, que incluíram peças da autoria de Vitorino para filmes, mas pesadamente marcadas pela improvisação, daí eu classificar o show de jazzístico. Várias foram as vezes que o pianista dedilhou ou martelou as cordas com as mãos, para criar sons inéditos para emoldurar suas interpretações!

Soirée

Schönbrunn Palace Orchestra, desfilando diante de nós e nossos ouvidos as maravilhas vienenses de Johann Strauss filho, Carl Millöcker, Lumbye, até Franz Lehár! Pequeno mas maravilhoso ensamble de cordas e sopros, acústica excelente da sala Luisa Todi, aqui em Setúbal. Do princípio ao fim, um concerto leve, inesquecível, ultraprofissional. Direção soberba e por vezes engraçada de Sándor Károlyi. Os cantores Simona Eisinger (soprano) e Michael C. Havlicek (barítono), estiveram irrepreensíveis. Simona Eisinger, cantando “Frülingsstimmer” disparou meu conhecido problema híper emocional, não só por sua interpretação, mas especialmente, porque evocou a malograda jovem soprano Patrícia Janecková, que tanto eu admirava ouvir nessa mesma peça…

Diferente

Hoje acho-me diferente de ontem:

vinte e quatro horas mais velho.

com todas essas horas, que pesam

em cada pedacinho do meu corpo,

vou-me sentindo frágil, vulnerável,

respeitável na avançada idade que

ostento, sem querer ostentar, no meu

resistir, sem poder resistir…

Males

Quando a conversa converge para doenças, envelheço junto e tendo a aborrecer-me. O pior é que, quando se reúnem várias pessoas da minha faixa etária, é certo e sabido que listas extensas de males e maleitas vão saindo em longos queixumes e lamúrias. Se porventura estou bem-humorado, até posso achar graça, observando a similaridade das sofrenças relatadas, ou até disputadas pelos presentes. Se o humor não é lá dessas coisas, armo um sorriso complacente o menos idiota que puder enquanto procuro sair de fininho. Por outro lado, sei que eu próprio tenho momentos de descair e falar e até de escrever sobre males que me consomem. Mas afinal, males de saúde, quem os não tem?…

Inquietam-se-me as pernas, em movimentos bruscos de impossível controle, como se correntes elétricas as percorressem! Digam-me os magos da medicina, onde posso eu encontrar o disjuntor que desligue a fonte desses curto-circuitos que perturbam meu sono e, especialmente, o sono da minha companheirinha. No decorrer do dia, de tais ocorrências não me dou conta. Elas aparecem na cama e sentado em longos voos. Daí eu, que sempre gostei de voar, sofro horrores quando agora o faço…

Terráqueos

O Planeta continua lindo, pleno de encantos, mas também de perigos mil, incontroláveis, porque a Natureza é totalmente incontrolável por nós, humanos, com ou sem fósseis, com ou sem bombas atômicas, com ou sem plásticos e milhões de peidos de todas vacas existentes. Nós, animais ditos racionais, somos o pior dos piores males na superfície do belíssimo globo azul flutuando no espaço. Males sem poder para modificar a Natureza, mas que a Natureza não tem como controlar. O mundo é perfeito, mas seus habitantes são uma amálgama sem outro rumo que não seja a autodestruição. O Planeta segue, impassível, seus ciclos: Hora quente demais, hora de frios extremos. Quem sabe no próximo período glacial, a poderosíssima Natura dá uma mãozinha nesse ímpeto autodestrutivo e metade dos terráqueos perece, permitindo um novo começo nas cavernas?

Snif…

Auto confiança resvalando em absurdos, culpo a idade, que de forma alguma eu queria ou deveria culpar; em reduzidíssimo tempo cometi algumas barbeiragens enquanto conduzia; agora, há pouquinho, enquanto estacionava com destreza e certeza, veio a torpeza; atropelei um andaime de obra disfarçado com tapamento de lona: o vidro traseiro do carrinho explodiu em vidrilhos. Desolado, fui atrás do conserto da patifaria, mas ficarei sem transporte pelos próximos dois dias…(snif)

Medo

Comecei estas linhas falando no quão assustador está este nosso mundo; mas fiquei deveras assustado e preferi abandonar o tema. Poderia, é claro, desistir de escrever, coisa nada difícil, dada a minha falta de vontade e ausência do bloguinho. Mas, com um esforcinho, lá vou esgadanhando, esgravatando, espremendo, hora o Tico, hora o Teco, tão adormecidos como adormecentes. O calor tem, por certo, algo a ver com esse meu desestimulo. Quem sabe, eu peço ajuda aos sábios da escrita? Da escrita, não da escritura, que para tal a alma eu não sinto pura. . Mas, a quem apelar? Aos desbocados e escabrosos versos de Bocage? Não, não, que não estou para aí virado;

Talvez a Pedro Homem de Mello, meu professor de português: “Os homens correm? – deixá-los ir atrás do seu desejo! E os cavalos, que não vejo? Volta sempre a madrugada, volta sempre tarde ou cedo. O que alonga nossa estrada, é o medo, é o medo”. É então o medo que faz sentido para mim no momento? Não faz sentido, mas faz todo o sentido se pinçarmos de António Ferreira: “É a medo que escrevo, a medo penso/A medo sofro, empreendo e calo/A medo peso os termos quando falo/ A medo me renego, me convenço”.

Perdi afinal o medo, e me despeço…

Reflexões

Longos foram os anos construindo meu próprio eu, que agora, paulatinamente, vou desconstruindo, em pedacinhos que de mim se vão desprendendo, num processo sem retrocesso. Reflito, e enquanto reflito, eu me agito, aflito, porque a minha pretensão de ser imortal pode, afinal, ser só coisa da minha cabeça. Mas será mesmo? É que eu pretendo usar o novo aeroporto de Lisboa, que talvez esteja pronto lá pelo final deste século, a depender dos bons ofícios dos políticos e burocratas…

Normalidades

O “normal” da tarde de ontem, definiu-se com os ajuntamentos em todas as elevações, para apreciar, fotografar, deliciar-se com o rei Sol brincando às escondidas com a Lua, num evento que não mais verei na vida que porventura me reste. No entanto, o tal “normal” em mim foi de total anormalidade, se considerarmos o fotógrafo amador dedicado que, em tempos, costumava ser. Sorte que o meu cunhado tinha uma máscara de solda, o que permitiu dar uma espiada rápida no eclipse, que aqui por Lisboa e arredores foi apenas parcial. Mesmo assim deveria ter fotografado, né? Mas não fotografei! No entanto, acordei hoje cedo o suficiente para, agora sim, fotografar para certificar-me e documentar que o Sol se livrou mesmo da Lua…